Segunda-feira, Agosto 02, 2010

Bula



Tem certeza meu bem? Será que estou tão mal?
Náusea vá lá...
Sonolência, sudorose,
Quem sabe algo alternativo?
Tremores...
Nunca fui muito controlado, realmente...
Mas dá medo.
Tontura, nervosismo, náuseas. Ahhh, náuseas.

Boca seca.
Uma cervejinha alivia a tensão. Ou não?
Insônia.
Meu Deus, finalmente terei tempo pra escrever.

Perda de peso, sonhos alterados...

Ejaculação precoce,
Impotência,
Disfunções sexuais várias....

Não benzinho, definitivamente vou entrar em depressão!

Terça-feira, Julho 27, 2010

X

Marco aqui, no território que me é mais familiar, o começo da minha nova vida. Faço um quadrado perfeito com uma linha amarrada às extremidades. Sou um amorfo sinal. Um borrão. Sou uma pena e uma pedra. Não.



________________________
Ensaio SuRrEAl - Foto de Natalia Turini

Sábado, Junho 27, 2009

...

Você deve competir, produzir, acionar, redimensionar, construir, estabelecer, ordenar.
Sem vínculo ou titubeio, mande guela abaixo a aguardente que esganiça seus gemidos e corrobora seus medos e desmistifica seu sono e sufoca seus olhos e mata seu corpo, aos poucos.
Você deve impedir que se impeça ou entender a lógica arbitrária da arbitrariedade ressentida da ordem.
Livre dos mais estranhos pensamentos, encontre-se perdido e se perca. Peque e cuspa e jorre.
Mate, coma, atordoe, engane, trepe. No fim é só isso que você é.

Sábado, Junho 13, 2009

?

A vida é a busca incessante de algum autoconhecimento.
Ela origina tempestades, rompe laços...
E termina num grande e pomposo ponto de interrogação.

Terça-feira, Maio 05, 2009

- A Insegurança...

Nasceu daquela gosma escura e prolixa dos discursos infundados de seus pais.

Domingo, Abril 05, 2009

Auto-crítica

Mexa com as estruturas dessa sua pré – estrutura, pré – estabelecida, pre – matura, tosca. Re - estabeleça, re – integre, re – aja. Faça acontecer um ato que sirva pra algo além do seu ego.
Reflita sobre si mesmo, veja suas falhas, re-veja , re- flita, aflito, sua realidade re- solvida numa pseudo tentativa de compreender-se. Quede-se atônito! Você não tem nada o que fazer além daquelas promessas vazias de mudança. No fundo você sabe disso. E gosta.

Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Engano

Usei de alguma violência para dizer coisas, aquelas coisas de que ele há muito precisava saber. Ele, cujos ouvidos ainda informes desempenhavam com dificuldade seu papel, não soube como reagir ao que eu bruscamente lhe dissera, não soube como agradecer ao inesperado e violento abastecimento das coisas de que precisava saber -- há muito e sem saber que -- senão as ouvindo.
Era uma espécie de descontentamento que o tomava de súbito, sem que, mesmo que no fundo o soubesse, transformasse sua inércia em algo mais do que uma simples sensação de vazio que insistia em ignorar.
Falei mais do que podia ou queria, mas falei o que deveria ser dito, mais ainda do que poderia pensar que um dia conseguiria expressar em palavras. Falei sobre o passado e o presente, e acima de tudo falei sobre as potencialidades de um futuro possível, mas não necessário, ou esperado.
Falei muito e ouvi pouco mais do que sussurros. Suas palavras eram como que sem nexo, defendia-se sem labor ou paixão, apenas por pura e simples reação mecânica, não havia muito de personalidade em suas míseras tentativas de esboçar o que sentia.
Enfim, notei triste que nem a violência o abalava, e muito menos poderia eu exigir isso de alguém tão brevemente inserido em meu mundo. Notei ainda que minhas palavras soavam vazias quando meu interlocutor não passava de uma parede abstrata, pálida e tristemente pintada de cinza.
Mais do que isso, e talvez por um rompante de lucidez que me parecia raro, percebi finalmente que não restara mais em mim sequer resquícios da paixão que me consumia ou do ansioso sentimento de necessidade que me era tão inerente quando nos conhecemos.
Deixei-o sentado na poltrona verde musgo do quarto escuro, e saí de tal forma alterado, num misto de felicidade e decepção, que bati a porta com raiva e desci as escadas correndo.
Da rua, olhei uma última vez para a janela de onde tantas vezes vi passar pessoas felizes invejando sua alegria despreocupada e inconsciente, e notei, lá, de pé, olhando para mim, o rosto que já não me despertava mais nada. Dos olhos escorriam lágrimas espessas, e o rosto de certa forma me pareceu expressar gratidão.
Talvez não fosse o único a achar que aquilo era um engano.


Por Rafael Avansini e André Mesquita