Usei de alguma violência para dizer coisas, aquelas coisas de que ele há muito precisava saber. Ele, cujos ouvidos ainda informes desempenhavam com dificuldade seu papel, não soube como reagir ao que eu bruscamente lhe dissera, não soube como agradecer ao inesperado e violento abastecimento das coisas de que precisava saber -- há muito e sem saber que -- senão as ouvindo.
Era uma espécie de descontentamento que o tomava de súbito, sem que, mesmo que no fundo o soubesse, transformasse sua inércia em algo mais do que uma simples sensação de vazio que insistia em ignorar.
Falei mais do que podia ou queria, mas falei o que deveria ser dito, mais ainda do que poderia pensar que um dia conseguiria expressar em palavras. Falei sobre o passado e o presente, e acima de tudo falei sobre as potencialidades de um futuro possível, mas não necessário, ou esperado.
Falei muito e ouvi pouco mais do que sussurros. Suas palavras eram como que sem nexo, defendia-se sem labor ou paixão, apenas por pura e simples reação mecânica, não havia muito de personalidade em suas míseras tentativas de esboçar o que sentia.
Enfim, notei triste que nem a violência o abalava, e muito menos poderia eu exigir isso de alguém tão brevemente inserido em meu mundo. Notei ainda que minhas palavras soavam vazias quando meu interlocutor não passava de uma parede abstrata, pálida e tristemente pintada de cinza.
Mais do que isso, e talvez por um rompante de lucidez que me parecia raro, percebi finalmente que não restara mais em mim sequer resquícios da paixão que me consumia ou do ansioso sentimento de necessidade que me era tão inerente quando nos conhecemos.
Deixei-o sentado na poltrona verde musgo do quarto escuro, e saí de tal forma alterado, num misto de felicidade e decepção, que bati a porta com raiva e desci as escadas correndo.
Da rua, olhei uma última vez para a janela de onde tantas vezes vi passar pessoas felizes invejando sua alegria despreocupada e inconsciente, e notei, lá, de pé, olhando para mim, o rosto que já não me despertava mais nada. Dos olhos escorriam lágrimas espessas, e o rosto de certa forma me pareceu expressar gratidão.
Talvez não fosse o único a achar que aquilo era um engano.
Por Rafael Avansini e André Mesquita